Os gigantes pré-históricos de Boqueirão, Paraíba

Os gigantes pré-históricos de Boqueirão, Paraíba

No interior da Paraíba, mais precisamente em Boqueirão, um passado esteve escondido por milhares de anos debaixo da terra. Ali, fósseis de animais gigantes que viveram durante o Pleistoceno, um período que começou há cerca de 2,6 milhões de anos e vai até 11,8 mil anos atrás, ajudam hoje a reconstruir uma parte da história da nossa região.

Foi esse universo que despertou o meu interesse, Larissa Chagas Silva. Ainda na graduação de Biologia na UEPB, tive o contato com a Paleontologia durante a disciplina ministrada pelo professor Juvandi de Souza Santos. A partir dali, surgiu a vontade de transformar a curiosidade em pesquisa.

A oportunidade veio com um tema que unia ciência e curiosidade: os fósseis encontrados em Boqueirão, cidade onde moro. Sob orientação do professor Juvandi e co-orientação do paleontólogo Mário Dantas, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ela passou a investigar os vestígios de uma antiga fauna formada por animais de grande porte, a chamada megafauna pleistocênica.

A história desses fósseis em Boqueirão começou em 1993, no sítio Quarenta, próximo ao distrito do Marinho. Foi o agricultor Antônio Leandro da Silva, conhecido como Seu Tempório, quem encontrou os ossos enquanto escavava um tanque natural que serviria de reservatório de água para os animais em tempos de chuva (Figura 1, A e B).

Figura 1: Tanque natural fossilífero do sítio Quarenta em Boqueirão-PB. (A) O proprietário, seu Tempório, no tanque onde foram encontrados os fósseis, sem água. (B) Mesmo tanque em 2024.

Fonte: (A) TREVAS (2011); (B) Fernando Florencio da Silva, 2024.

Sem saber do que se tratava, ele comunicou a descoberta às autoridades locais, que acionaram especialistas. Entre eles estava o renomado paleontólogo Cástor Cartelle, um dos grandes nomes do estudo da megafauna brasileira. A análise inicial revelou a presença de fósseis de animais impressionantes, incluindo Eremotherium laurillardi, a famosa preguiça-gigante, que podia atingir seis metros de comprimento e até seis toneladas.

Grande parte do material retirado do sítio foi levado, inicialmente, para João Pessoa. Hoje, sabe-se que esses fósseis estão no Museu de Arqueologia e Paleontologia da Paraíba, da UEPB, em Campina Grande. Outra parte menor permaneceu em Boqueirão.

Essa coleção local passou primeiro pela chamada Escola Agrícola, sob os cuidados do professor Iolanilson Chagas (Io), e depois foi transferida para o Instituto Histórico e Geográfico de Boqueirão “Teodósio de Oliveira Ledo” (IHGB), criado em 2020. Mais recentemente, em 2025, o material precisou retornar à Escola Agrícola, enquanto aguarda uma nova sede para o instituto.

Foi em 2024 que a comecei a estudar mais de perto os fósseis de Boqueirão. Com autorização do professor Iolanilson, tive acesso ao material exposto ao público e, depois, também às peças guardadas fora da exposição.

A análise inicial da coleção principal resultou na publicação de um artigo científico na revista Tarairiú, apresentando três representantes da megafauna local: a preguiça-gigante Eremotherium laurillardi, o proboscídeo Notiomastodon platensis e Panochthus sp., um tatu-gigante que podia ter tamanho comparável ao de um fusca. Essas identificações foram feitas principalmente a partir de fragmentos de molares fossilizados e, no caso de Panochthus, de um fragmento da carapaça. O trabalho comparou os fósseis encontrados em Boqueirão com descrições já registradas na literatura científica, permitindo reconhecer a identidade dos animais (Figura 2, A, B, C, D, E e F).

Figura 2: Representação dos animais da megafauna pleistocênica (A) Eremotherium laurillardi (Preguiça Gigante), (B) Notiomastodon platensis (Mastodonte), o gênero  (C) Panochthus sp. (Tatu Gigante) e os respectivos fragmentos fósseis  (D, E, F) relacionados, respectivamente, às espécies citadas, encontradas na coleção principal do IHGB que possibilitaram a identificação taxonômica das espécies citadas.

Fonte: (A) REDDIT, 2026; (B) X, 2020; (C) MEGAFAUNA, 3D, 2026; (D, E, F) Larissa Chagas Silva, 2024.

Durante o desenvolvimento do meu TCC, a pesquisa avançou ainda mais. Ao analisar os fósseis que não estavam expostos, eu e os pesquisadores identificamos mais duas espécies: Palaeolama major, um animal semelhante às lhamas atuais, e Valgipes bucklandi, uma preguiça pré-histórica de menor porte (Figura 3, A, B, C, D, F).

Figura 4: Espécies encontradas ao analisar os fragmentos fósseis na coleção que não estava em exposição. (A) Palaeolama major; (B) Valgipes bucklandi e seus respectivos fósseis utilizados para identificação taxonômica.

Fonte: (A)FAPERJ, 2025; (B) X,2026; (C e D), Larissa Chagas Silva, 2024.

A descoberta de Valgipes bucklandi teve um peso especial: até então, essa espécie ainda não havia sido citada para a coleção fossilífera do tanque de Boqueirão em trabalhos anteriores. Com isso, o conjunto de fósseis estudados passou a reunir cinco espécies distintas da megafauna pleistocênica.

Além de identificar os animais, a pesquisa também buscou responder a uma pergunta importante: como era o ambiente em que eles viviam?

Por meio de análises químicas realizadas nos fragmentos fósseis, foi possível inferir aspectos do paleoambiente e também da alimentação dessas espécies. Os resultados sugerem que Palaeolama major, Eremotherium laurillardi e Panochthus sp. estavam associados a áreas de savana arbórea. Já Notiomastodon platensis teria vivido em ambientes de savana arbórea a aberta. Por sua vez, Valgipes bucklandi estaria ligado a áreas de savana aberta.

As análises também indicaram diferenças na dieta. Eremotherium laurillardi, Notiomastodon platensis, Palaeolama major e Panochthus sp. apresentavam dieta mista, combinando folhas, frutos e gramíneas em proporções variáveis. Já Valgipes bucklandi mostrou uma alimentação baseada exclusivamente em gramíneas, sendo classificado como um animal pastador (Figura 4, A, B e C).

Figura 5: Representação do habitat ou paleoambiente dos indivíduos analisados. (A) Savana arbórea; (B) Savana arbórea aberta; (C) Savana aberta.

Fonte: (A, B e C) Google imagens.

Mais do que contar a história de animais extintos, o estudo dos fósseis de Boqueirão também reforça a importância de preservar o patrimônio paleontológico do interior nordestino. Cada fragmento encontrado ajuda a reconstruir paisagens desaparecidas, modos de vida antigos e a riqueza natural que existiu na região há milhares de anos.

Ao mesmo tempo, esse trabalho mostra como a ciência pode nascer do vínculo com o lugar onde se vive. Em Boqueirão, os fósseis não são apenas vestígios do passado distante: eles também se tornaram parte da memória local e da construção do conhecimento científico produzido na própria Paraíba.

Figura 6: (A) Coleção principal de fósseis expostos ao público antes da mudança da localização do IHGB em 2025; (B) Arte dos animais que, teoricamente, estavam na coleção; (C) Fósseis guardados e não expostos ao público.

Fonte: Larissa Chagas Silva, 2024.

REFERÊNCIAS

ARQUEOLOGIA e Pré-História. X, 2020. Disponível em: <https://x.com/ArqueoPreHist/status/1280539499957796865>. Acesso em: 20 de março de 2026.

A MAIOR espécie de bicho-preguiça norte-americano, Eremotherium laurillardi, reconstruída ao lado da preguiça-de-garganta-marrom existente.Reddit.

Disponívelem:<https://www.reddit.com/r/Naturewasmetal/comments/ig0lgn/the_largest_species_of_north_american_sloth/?tl=pt-br>. Acesso em: 20 de março de 2026.

SILVA, Larissa Chagas. Taxonomia e paleoecologia isotópica (δ13C, δ18O) da megafauna pleistocênica de Boqueirão, Paraíba, Brasil. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Biológicas) – Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, 2025.

MOTTA, D. Últimas espécies da megafauna nas Américas viveram além da Era do Gelo. FAPERJ, 2025. Disponível em: <https://faperj.br/?id=709.7.3>. Acesso em: 20 de março de 2026.

PANOCHTHUS (Glyptodont), Megafauna 3D. Disponível em: <https://www.megafauna3d.org/en/panochthus-2/>. Acesso em: 20 de março de 2026.

SILVA, L. C.; CHAGAS, J. I. C.; SANTOS, J. S.; DANTAS, M. A. T. Nota Sobre Os Fósseis De Megafauna Pleistocênica Depositados No Instituto Histórico E Geográfico De Boqueirão “Teodósio De Oliveira Ledo”, Boqueirão, Paraíba: Uma Atualização. Tarairiú, Campina Grande, v.1, n.24, p.1-9, jul. 2024.  

TREVAS, M. P. A Megafauna Pleistocênica na Região do Cariri Paraibano. Tarairiú, Campina Grande, n.03, set/out. 2011.